Educação


 

Porto Alegre, 27 de janeiro de 2003

 

A escola que hoje predomina nas sociedades capitalistas não é fundamentalmente diferente daquela que predominava nas sociedades ditas comunistas. Não é portanto criação e prerrogativa do capitalismo, mas certamente terá que ser superada em uma sociedade que supere a atual configuração de forças.  O ponto pelo qual pretendo iniciar a minha exposição é ressaltando os discursos hegemônicos em relação à escola – hegemônicos tanto entre aqueles que pretendem perpetuar a sociedade capitalista quanto entre os que buscam superá-la.

Acompanhando as reportagens que a mídia dedica ao tema da educação, observam-se alguns modelos explicativos recorrentes, sempre atribuídos a “especialistas”, sejam eles burocratas do governo, lideranças sindicais ou pesquisadores universitários:

·         O sucesso na “Nova Economia” cada vez mais depende de uma boa educação. Motivos: é preciso ter o nível médio completo para desenvolver qualquer atividade, já que agora todas as tarefas envolvem operações técnicas sofisticadas; quem não fizer as melhores universidades, perderá o jogo. Saídas: universalizar a escolarização e tornar as escolas cada vez mais competitivas, desde a pré-escola, para a criança ir se acostumando com o vestibular. 

·         A indisciplina tornou-se um problema generalizado em escolas públicas e privadas no Brasil e no exterior. Motivo: a geração que fez a revolução comportamental nos anos 60/70 está criando seus filhos com liberdade demais e por isso perdeu o controle sobre eles, está formando uma juventude sem limites. Saídas: transformar as escolas “liberais” em escolas “linha dura”, dar aulas de cidadania, aumentar os controles sobre a juventude.

·         A violência está destruindo a nossa juventude, que reproduz este comportamento nas suas relações familiares, sociais e na escola. Motivo: os jovens estão se envolvendo com o crime organizado, o tráfico de drogas, para conseguir dinheiro fácil. Saída: mais policiamento nas ruas, maior segurança nas escolas (policiais e sistemas de segurança privados), diminuição da maioridade penal.

O que pretendo mostrar aqui é uma outra forma de olhar para a questão da educação, levantando outros problemas, buscando diferentes explicações e questionando as implicações das saídas que estão sendo anunciadas.

Para isso, teremos que começar requalificando o que entendemos por “novas tendências”, por “crises” e por “resistência”.

Podemos partir da pergunta: será que a necessidade de escolarização para o desenvolvimento das tarefas comuns do mundo do trabalho é mesmo uma novidade? Possivelmente não. A escola moderna nasceu justamente para adequar os corpos e  as mentes a realizar as tarefas mais corriqueiras. Na época da Revolução Industrial, estas tarefas corriqueiras eram as da linha de montagem e foi para formar a massa de trabalhadores fabris que a escola se constituiu.

A escola se estabeleceu na modernidade como instrumento de formação de trabalhadores aptos a realizar as atividades mecânicas exigidas pela Revolução Industrial. Reivindicar hoje em dia a escola como meio para a  aquisição das habilidades necessárias para o mundo eletrônico não lhe acrescenta novidade alguma. Ao contrário: apenas escancara o papel domesticador da escola. Não é porque a tecnologia se sofisticou que a formação de indivíduos capazes de operá-la se confunde com qualquer processo educativo.

Afirmar que hoje em dia “na Nova Economia, com o advento da Internet, o sucesso depende do nível de escolarização” tem duas implicações importantes: em primeiro lugar, o reconhecimento do papel da escola como domesticadora; em segundo lugar, a individualização da responsabilidade pelas desigualdades sociais. Os pobres são culpados por sua própria situação porque não estudaram, não acompanharam o desenvolvimento tecnológico, não se atualizaram. Os ricos são ricos porque fizeram por merecer, estudaram, navegaram, se tornaram internautas, progrediram. É o velho discurso com nova roupagem, a roupagem da Internet, do mundo virtual. É uma ilusão útil porque a culpa sufoca a revolta.

Se de fato fosse verdade, não estariam entre os principais grupos de desempregados europeus os jovens graduados. E no Brasil, será que em um país onde os 10% mais ricos detêm metade da renda nacional, ao passo que os 40% mais pobres ficam com apenas 5%, a escolarização é mesmo uma saída? Nos últimos anos, quando o acesso à escola tornou-se quase universal entre os brasileiros, o desemprego, a pobreza e a desigualdade cresceram significativamente.

A escola é, por si mesma, um instrumento de manutenção desta situação. Os sociólogos franceses Émile Durkheim e Michel Foucault foram os que melhor definiram os preceitos da escola moderna, o primeiro com entusiasmo e o segundo com crítica.

Modelo Educativo Dominante

 

Objetivo geral

Perpetuar a sociedade que o criou, tornando-se uma força contra a qual qualquer resistência implica dissidência (moralização)

Objetivo específico

preparar a criança para o esforço e a dor, para a máxima eficácia física e psíquica

Instrumento

a escola

Definição de escola

Sistema de regras que predeterminam a conduta, pelo controle ininterrupto e minucioso das operações do corpo e pelos exames que permitem comparar, medir e avaliar (docilidade/utilidade)

Dispositivo

Disciplina – o respeito à regra é garantido como dever (a criança sente-se culpada pela falta cometida)

Papel do professor

Autoridade que garante o cumprimento das regras, inspeciona, controla, vigia e ensina as crianças a avaliarem suas faltas


Se formos capazes de reconhecer o papel da escola como agente disciplinador, instrumento do poder, poderemos compreender de outra forma fenômenos sociais tais como depredações dos prédios escolares, repetência, evasão, indisciplina. Associar este tipo de atitude com ligações ao crime organizado, desorganização familiar ou excesso de liberdade apenas fortalece o discurso da ordem e da disciplina e não ajuda a compreender a dimensão sociológica destes fenômenos.

As depredações, a repetência, a evasão e a indisciplina são formas de resistência aos mecanismos de poder descritas acima, de recusa à domesticação do corpo e da mente.

Apesar de atitudes deste tipo se constituírem de fato como resistência aos mecanismos de poder, elas não se configuram como alternativa ao modelo dominante, porque não podem ser multiplicadas indefinidamente. A mera recusa a ir à escola, a depredação dos prédios escolares, a violência generalizada entre os estudantes não vão remover os efeitos do poder, não vão devolver aos indivíduos o controle sobre seu próprio corpo, não vão se constituir como uma abertura para o futuro.

Mas há formas de resistência que se apropriam dos dispositivos do poder e o transformam, como a própria Internet. Em 1971, o filósofo Ivan Illich, em seu livro Sociedade sem Escolas, buscando alternativas ao modelo escolar, preconizava uma metodologia que duas décadas mais tarde se tornaria universal via os grupos de discussão (chats) virtuais: “Cada indivíduo, em qualquer momento e a qualquer preço, poderia se identificar para um computador com seu endereço e telefone, indicando um livro, artigo, filme, ou disco sobre o qual estivesse procurando um parceiro para debater. Em alguns dias, ele poderia receber pelo correio a lista de outros que tivessem recentemente tido a mesma iniciativa. Esta lista lhe permitiria telefonar para marcar um encontro com pessoas que inicialmente seriam conhecidas exclusivamente pelo fato de terem requisitado um diálogo sobre o mesmo assunto” (p.19).

Dentre as formas de resistência que se apropriam dos mecanismos de poder para constituir alternativas, as escolas democráticas são as mais significativas. Comparemos o modelo democrático com o modelo dominante:

Modelo Educativo Democrático
 

Objetivo geral

Transformar a sociedade

Objetivo específico

Tornar a criança apta a assumir responsabilidades, tomar decisões, aprender qualquer ofício, desenvolver suas habilidades

Instrumento

Centros de aprendizado

Definição de centros de aprendizado

Locais de socialização, onde se disponibilizam fontes de conhecimento e oportunidades de participação ativa na gestão

Dispositivos

Assembléias gerais e comitês

Papel do educador

Orientar os educandos na medida em que demonstrem necessidade

 

Apesar de agora o modelo democrático estar sendo incorporado nos projetos “fora da escola”, ainda há muita resistência para torná-los o modelo escolar dominante. Ao contrário, o fato de a estrutura democrática ser vivida em espaços fora da escola  cria um fosso que apenas reforça o modelo escolar dominante: na escola impera a tradicional aula por disciplinas, nos horários rigidamente demarcados, seguindo a seriação progressiva; fora da escola, as crianças freqüentam oficinas, decidem o que querem estudar e se desenvolvem enquanto se divertem. Consolida-se então a idéia de que O Conhecimento (igualado à ciência) só pode ser adquirido pela dor e pelo esforço, ao passo que as atividades artísticas, esportivas e culturais podem ser perpassadas pelo lúdico, pela liberdade, sem necessitar dos mecanismos tradicionais de exames, pré-requisitos e grade horária. Chega-se ao auge de se obrigar a criança a freqüentar a escola (o castigo) para poder participar dos projetos não escolares (o prêmio). 

No entanto, há mais de 150 anos, existem escolas que se organizaram sobre o modelo democrático descrito. Somente agora, estas escolas estão perdendo seu isolamento e conseguindo se multiplicar, valendo-se justamente da possibilidade de constituição de redes aberta pela Internet.

As escolas democráticas mais significativas pelo lugar e pela época em que foram criadas e pela repercussão que obtiveram foram:  Yásnaia-Poliana, dirigida pelo famoso escritor Leon Tolstoi, entre 1857 e 1860, na Rússia, para filhos de camponeses; o  Lar  das Crianças, fundado por Janusz Korczak em 1912 e que funcionou até 1942, na Polônia, para crianças judias; Summerhill – inicialmente Escola Internacional, fundada por Alexander Sutherland Neill em 1921 na Alemanha – e, ao contrário do que imagina a maioria, em funcionamento até hoje, na Inglaterra, com estudantes vindos do mundo todo; Sudbury Valley School, fundada em 1968, por grupo liderado por Daniel Greenberg, nos Estados Unidos, e também em funcionamento até os dias de hoje, com crianças de classe média.

Há hoje em dia centenas de escolas democráticas no mundo todo e com as formações mais diversas: escolas particulares nos Estados Unidos, escolas públicas em Israel, cooperativas de crianças trabalhadoras na Índia, cooperativas de pais na Europa, escolas comunitárias na Austrália. Na América Latina, há experiências modelares no Equador, na Guatemala e na Colômbia. Algumas redes internacional conectam mais de trezentas instituições.

No Brasil, a primeira escola democrática está nascendo agora – chama-se Lumiar e irá iniciar suas atividades na próxima semana, em São Paulo. É mantida pela Fundação Semco que está subsidiando em até 100% as mensalidades para crianças carentes. Sua proposta é radicalizar a democracia em todos os aspectos: na gestão, na criação de um espaço único de crianças de diferentes origens sociais e no seu formato de comunidade de aprendizado.

Em uma comunidade de aprendizado, o conhecimento é tratado com respeito e não como instrumento de disciplinarização, castigo. Ele é construído de forma flexível, não seriada, com base em temas, sendo gerido autonomamente pelo estudante. Profissionais ou apaixonados por diferentes temas vêm à escola e compartilham com as crianças sua paixão e expertise. O conhecimento não fica preso em grades horárias, vigiado por professores (ensinadores) e limitado a salas de aula. Ele reconhecido e valorizado em todos os espaços e momentos em que é produzido. Nesta proposta, a gestão democrática da comunidade escolar é indissociável de uma nova forma de conhecer e aprender.

Nas escolas que buscam superar as formações capitalistas, a democracia é plena, a responsabilidade é inteiramente dividida, as diferenças são respeitadas sem se converterem em desigualdades e a punição é vista como um mal em si, algo desnecessário e que deve ser evitado.

 



 


Helena Singer is Diretora de Educação da Fundação Semco e doutora em Sociologia pela USP.

 

Leave a comment